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No Dia do Herói Nacional

16/09/2020

Biografia do Presidente António Agostinho Neto 

 
António Agostinho Neto (1922-1979) foi o primeiro presidente da República de Angola. Era médico de profissão, poeta por vocação e um líder por natureza. Nascido a 17 de Setembro de 1922, na aldeia de Kaxicane, freguesia de São José, no município de Ícolo e Bengo, na província de Luanda, era filho do pastor metodista, Agostinho Neto, catequista da missão metodista americana em Luanda (sendo mais tarde pastor e professor nos Dembos), e da professora Maria da Silva Neto. Após concluir o ensino primário, entrou para o Liceu "Salvador Correia”, em Luanda, onde terminou o 7º ano em 1944. Depois, partiu para Portugal para frequentar a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.
 
Uma bolsa de estudo da igreja de metodistas dos USA para o filho do pastor, ajudou a Neto, a partir do seu segundo ano de residência em Portugal, a sobreviver na metrópole e perseverar no sonho de ser médico, continuando os seus estudos de medicina na Universidade de Lisboa, onde se licenciou. Foi em Portugal onde Agostinho Neto iniciou a sua ação política, fazendo parte da geração de estudantes africanos que viria a desempenhar um papel decisivo na independência dos seus países naquela altura, que ficou designada como Guerra Colonial Portuguesa. Em 1947, integrou o Movimento dos Jovens Intelectuais de Angola sob o lema "Vamos Descobrir Angola”. Em Coimbra, com Lúcio Lara e Orlando de Albuquerque, colaborou nas revistas "Momento” e "Mensagem”, órgãos da Associação dos Naturais de Angola, enquanto em Luanda era publicado pela "Cultura”, boletim da Sociedade Cultural de Angola. Em Outubro de 1958 casou com Maria Eugenia Neto, que conheceu num círculo de escritores em Lisboa em 1948. Com ela teve um filho, Mário Jorge, e em 1961 uma filha chamada Irene Alexandra. Ainda tiveram outra filha mais nova chamada Leda.
 
Os seus poemas e artigos, aliados ao seu engajamento político fizeram com que fosse perseguido e preso pela PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), órgão repressor da ditadura salazarista que combatia os movimentos nacionalistas das colónias portuguesas de então. Foi deportado para o Tarrafal, uma prisão política em Cabo Verde. Posto em liberdade, retoma a atividade política e intelectual, fundando em Lisboa, em parceria com  Amilcar Cabral, Mário de Andrade, Mar 
celino dos Santos e Francisco José Tenreiro, o Centro de Estudos Africanos, orientado para a afirmação da nacionalidade africana. Em 1951, é indicado como  
representante da Juventude das colónias portuguesas junto do MUD-Juvenil (Movimento de unidade democrática-Juvenil) português. 
Pela sua participação em atividades anticoloniais é novamente preso pela PIDE, em Fevereiro de 1955, e condenado a dezoito meses de prisão. Preso em Lisboa, Agostinho Neto não participa, em 10 de Dezembro de 1956, no acto de fundação do MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola. 
Em 1957, é libertado pela PIDE e, um ano depois, licencia-se em Medicina pela Universidade de Lisboa e casa-se com Maria Eugénia Neto, como já comentámos, que era natural de Tras-Os-Montes.  Participa da fundação do Movimento Anticolonialista (MAC). Que congregava patriotas das diversas colónias portuguesas para uma ação revolucionária conjunta nas cinco colónias portuguesas: Angola, Guiné, Cabo Verde, Moçambique e S. Tomé e Príncipe. Pouco antes do Natal de 1959, Agostinho Neto, acompanhado da mulher e do filho, deixa Lisboa de regresso à Luanda, onde abre um consultório médico. Em paralelo com a sua atividade clínica, continua a sua militância a favor da independência e é eleito, em 1960, Presidente Honorário do MPLA. Preso pela terceira vez, em Luanda, Agostinho Neto é transferido para diversas prisões em Portugal e Cabo Verde. O assalto às cadeias de Luanda, em Fevereiro de 1961, desencadeia a luta armada pelo MPLA, seguindo-se uma forte repressão colonial. Preso na cidade da Praia, em Cabo Verde, Agostinho Neto é transferido para a prisão de Aljube, em Portugal, onde permanece até Março de 1963. Libertado, em 1963, foge clandestinamente para Léopoldville (Kinshasa), e junta-se ao MPLA. Neste mesmo ano é eleito presidente do MPLA durante a Conferência Nacional do Movimento. A luta armada contra o domínio colonial intensifica-se até que, em Fevereiro de 1975, regressa a Luanda. Em representação do MPLA, Agostinho Neto participa em Alvor, Portugal, na assinatura do acordo para a constituição do "governo de transição”. A 11 de Novembro de 1975, Agostinho Neto proclama a independência de Angola. Dirige o MPLA e Angola durante os primeiros anos de independência, mas, doente, morre com 56 anos a 10 de Setembro de 1979, em Moscovo, capital da então União Soviética. Agostinho Neto deixou como legados, a independência e a liberdade do povo angolano. No dia 17 de Setembro, Angola celebra o Dia do Herói Nacional, comemorando o dia em que Agostinho Neto nasceu. 


Dois poemas do livro "Sagrada Esperança"


Aspiração

Ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no Congo, na Geórgia, no Amazonas 

Ainda 
o meu sonho de batuque em noites de luar 

ainda os meus braços 
ainda os meus olhos 
ainda os meus gritos 

Ainda o dorso vergastado 
o coração abandonado 
a alma entregue à fé 
ainda a dúvida 

E sobre os meus cantos 
os meus sonhos 
os meus olhos 
os meus gritos 
sobre o meu mundo isolado 
o tempo parado 

Ainda o meu espírito 
ainda o quissange 
a marimba 
a viola 
o saxofone 
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco 

Ainda a minha vida 
oferecida à Vida 
ainda o meu desejo 

Ainda o meu sonho 
o meu grito 
o meu braço 
a sustentar o meu Querer 

E nas sanzalas 
nas casas 

no subúrbios das cidades 
para lá das linhas 
nos recantos escuros das casas ricas 
onde os negros murmuram: ainda 

O meu desejo 
transformado em força 
inspirando as consciências desesperadas. 
 
 
 

Adeus à hora da largada 


Minha Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

 


Mas a vida 
matou em mim essa mística esperança 


Eu já não espero 
sou aquele por quem se espera 


Sou eu minha Mãe 
a esperança somos nós 
os teus filhos 
partidos para uma fé que alimenta a vida 


Hoje 
somos as crianças nuas das sanzalas do mato 
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos 
nos areais ao meio-dia 
somos nós mesmos 
os contratados a queimar vidas nos cafezais 
os homens negros ignorantes 
que devem respeitar o homem branco 
e temer o rico 
somos os teus filhos 
dos bairros de pretos 
além aonde não chega a luz elétrica 
os homens bêbedos a cair 
abandonados ao ritmo dum batuque de morte 
teus filhos 
com fome 
com sede 
com vergonha de te chamarmos Mãe 
com medo de atravessar as ruas 
com medo dos homens 
nós mesmos 


Amanhã 
entoaremos hinos à liberdade 
quando comemorarmos 
a data da abolição desta escravatura 


Nós vamos em busca de luz 
os teus filhos Mãe 
(todas as mães negras 
cujos filhos partiram) 
Vão em busca de vida. 
 


Proclamação da Independência

Em nome do Povo angolano, o Comité Central do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), proclama solenemente perante a África e o Mundo a Independência de Angola. Nesta hora o Povo angolano e o Comité Central do MPLA observam um minuto de silêncio e determinam que vivam para sempre os heróis tombados pela Independência da Pátria. Correspondendo aos anseios mais sentidos do Povo, o MPLA declara o nosso País constituído em República Popular de Angola…                                  
… Em Dezembro de 1956, no Manifesto da sua fundação, o MPLA vincava já a sua determinação inquebrantável de luta por todos os meios para a independência completa de Angola afirmando - «o colonialismo não cairá sem luta. É por isso que o Povo angolano só se poderá libertar pela guerra revolucionária. E esta apenas será vitoriosa com a realidade de uma frente de unidade de todas as forças anti-imperialistas de Angola que não esteja ligada à cor, à situação social, a credos religiosos e tendências individuais; será vitoriosa graças à formação de um vasto MOVIMENTO POPULAR DE LIBERTAÇÃO DE ANCOLA». Força galvanizadora e de vanguarda do nosso Povo, o MPLA inicia heroicamente na madrugada de 4 de Fevereiro de 1961 a insurreição geral armada do Povo angolano contra a dominação colonial portuguesa. O longo caminho percorrido representa a história heróica de um Povo que sob a orientação unitária e correcta da sua vanguarda, contando unicamente com as próprias forças, decidiu combater pelo direito de ser livre e independente. Apesar da brutalidade da opressão e do terror imposto pelo colonialismo para asfixiar a nossa luta, o Povo angolano, guiado pela sua vanguarda revolucionária, afirmou de uma maneira irrefutável a sua personalidade africana e revolucionária. Tendo como princípio a unidade de todas as camadas sociais angolanas em torno da linha política e da formulação clara dos seus objectivos, definido correctamente os aliados, amigos e inimigos, o Povo angolano, sob a direcção do MPLA, venceu finalmente o regime colonial português. Derrotado o colonialismo, reconhecido o nosso direito à independência que se materializa neste momento histórico, está realizado o programa mínimo do MPLA. Assim nasce a jovem REPÚBLICA POPULAR DE ANGOLA, expressão da vontade popular e fruto do sacrifício grandioso dos combatentes da libertação nacional. Porém, a nossa luta não termina aqui. O objectivo é a independência completa do nosso País, a construção de uma sociedade justa e de um Homem Novo…

… Com a proclamação da República Popular de Angola as FORÇAS ARMADAS POPULARES DE LIBERTAÇÃO DE ANGOLA (FAPLA) são institucionalizadas em exército nacional. As FAPLA, braço armado do Povo, sob a firme direcção do MPLA constituem um exército popular que tem por objectivo a defesa dos interesses das camadas mais exploradas do nosso Povo. Preparadas na dura luta de libertação nacional contra o colonialismo português e armadas de teoria revolucionária, continuam a ser um instrumento fundamental da luta anti-imperialista. As FAPLA, como força, libertadora da República Popular de Angola, caberá defender a integridade territorial do País e, na qualidade de exército popular, participar ao lado do Povo na produção para a grandiosa tarefa da RECONSTRUÇÃO NACIONAL. Angola é um País subdesenvolvido. Devemos ter uma profunda consciência do significado e consequências deste facto. Os índices tradicionalmente usados para definir o subdesenvolvimento são plenamente confirmados em Angola. Eles dão a imagem da profunda miséria do Povo angolano. Mas dizer que o nosso Pais é subdesenvolvido não basta, é necessário acrescentar imediatamente que Angola é um País explorado pelo imperialismo; que gravita na órbita do imperialismo. Estas duas componentes conjugadas - o subdesenvolvimento a dependência - explicam por que razão a economia de Angola tão profundamente distorcida, com um sector dito «tradicional», ao lado de sectores de ponta, e regiões retardatárias cercando os chamados «pólos de desenvolvimento». Mas eles explicam também toda a crueza da injustiça das relações sociais. Pondo ponto final ao colonialismo e barrando decididamente caminho ao neocolonialismo, o MPLA afirma, neste momento solene o seu propósito firme de mudar radicalmente as actuais estruturas definindo desde já que o objectivo da reconstrução económica será a satisfação das necessidades do Povo. Longo caminho teremos de percorrer…

… As actividades privadas, mesmo as estrangeiras, desde que úteis à economia da Nação e aos interesses do Povo, serão em seu nome protegidas e encorajadas, tal como estabelece o Programa Maior do nosso Movimento. A República Popular de Angola estará aberta a todo o mundo para as suas relações económicas. Aceitará a cooperação internacional com o pressuposto indiscutível de que a chamada «ajuda externa» não deve ser condicionada ou condicionante. A longa história do MPLA demonstra à evidência que como força dirigente da República Popular de Angola jamais trairá o sagrado princípio da Independência Nacional. As nossas relações internacionais serão sempre definidas pelo princípio da reciprocidade de vantagens…

…Alcançada a Independência Nacional, o MPLA e o Povo angolano agradecem comovidos a ajuda prestada por todos os povos e países amigos à nossa luta heróica de libertação nacional...

… A República Popular de Angola, soberana, manterá relações diplomáticas com todos os países do mundo, na base dos princípios de respeito mútuo, da soberania nacional, não ingerência, de respeito pela integridade territorial, não agressão, igualdade e reciprocidade de vantagens, e da coexistência pacífica. A República Popular de Angola, Estado africano, livre e independente, exprime a sua adesão aos princípios da Carta da Unidade Africana e da Carta das Nações Unidas. A política externa da República Popular de Angola, baseada nos princípios de total independência, seguidos desde sempre pelo MPLA será de não alinhamento. A República Popular de Angola saberá respeitar os compromissos internacionais que assumir, assim como respeitará as vias internacionais que utilizam o seu território. … Compatriotas, Camaradas! No momento em que o Povo angolano se cobre de glória pela vitória do sacrifício dos seus melhores filhos, saudamos na República Popular de Angola o nosso primeiro Estado, a libertação da nossa querida Pátria. De Cabinda ao Cunene, unidos pelo sentimento comum de Pátria, cimentado pelo sangue vertido pela liberdade, honramos os heróis tombados na longa resistência de cinco séculos e seremos dignos do seu exemplo. Respeitamos as características de cada região, de cada núcleo populacional do nosso País, porque todos de igual modo oferecemos à Pátria o sacrifício que ela exige para que viva. A bandeira que hoje flutua é o símbolo da liberdade, fruto do sangue, do ardor e das lágrimas, e do abnegado amor do Povo angolano. Unidos de Cabinda ao Cunene, prosseguiremos com vigor a Resistência Popular Generalizada e construiremos o nosso ESTADO DEMOCRÁTICO E POPULAR.  
HONRA AO POVO ANGOLANO GLÓRIA ETERNA AOS NOSSOS HERÓIS! 
A LUTA CONTINUA! A VICTÓRIA É CERTA! 
 


Extractos do discurso feito às 00.00 horas do dia 11 de Novembro de 1975